quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ode aos mosquitos

A coisa que mais me irrita. Que realmente mais me irrita. Estar sentado no meu recinto, desfrutando dos meus minutos de infundado retiro social. As pessoas precisam manter uma real distância umas das outras. E o que me irrita? é carência de sentido em cada vez mais precisar juntar-se mais pessoas, mesmo sabendo que “na fruteira sempre existe um fruta podre que apodrece as outras” e pessoas putrefatas são realmente a verdadeira escória da sociedade. Meu pensamento é nazista? Não. Porque eu sei que sempre vai existir a “fruta podre” em todos os meios e circunstâncias. O que me exclui das perniciosas idéias de Hitler é que ao invés de exterminar o meio, eu me extermino do próprio.

Olho para a tela do computador relendo o texto. Fecho os olhos balançando a cabeça de um modo de que não acredito em solução. Meu precioso gole de café sucedido por um debruçar de cotovelos sobre a escrivaninha improvisada na mesa da cozinha. Escutando uma sinfonia tênue que vai, de uma forma progressiva, se tornando mais irritante minuto a minuto. Sem abrir os olhos, sem sair da posição decadente minha mente não se retira da orquestra de zumbidos vindo em minha direção. Olho novamente para o texto e imagino o que qualquer um pensaria ao ler: “isso é falta de mulher”. Dito de uma forma grosseira pela voz do povo.


Talvez devesse fechar a janela e evitar que esses impiedosos sugadores de sangue entrem.
Mas já é tarde, tarde demais. A nuvem orquestral de mosquitos me rodeia. “vocês são todos iguais! Suas sanguessugas miseráveis!” não consigo evitar o grito que se expande com eco pela sala ausente de móveis. Batendo freneticamente o notebook fechado no tentando de uma forma manter as feras aladas. O que mais me irrita nisso? O som! Esse barulho dissonante e rotativo. Corro em direção ao quarto, mais precisamente na estante de CDs ao lado da porta. Procuro pelo nome de Chico Buarque, aquele condenado por fazer um “samba elitista” pelas “frutas podres”. Executando no máximo volume então escapando daquele som irritante dos mosquitos. E passo o resto da noite ouvindo com sutileza as grandes composições de Chico e suportando as incômodas picadas dos mosquitos. Como sempre fiz.

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